terça-feira, 16 de maio de 2017

ALGUM LUGAR


Resolvi, eu
encontrei em minha vida
um centro e o finquei.

É a casa,
árvores além, um limite
de vista que a contorna.

O tempo
chega só como algum
vento, um pouco suspiro

amortecido. E
se a vida não fosse ?
quando algo estava para

acontecer, se eu o
tivesse fincado,
tivesse, insistente.

Nada existe que eu seja,
nada não. Um entre
lugar, eu sou. Sou

mais do que idéia, me-
nos do que idéia. Uma casa,
ventos, mas uma distância

- algo solto no vento,
sentindo o tempo como aquela vida,
anda para as luzes que ele deixou.

segunda-feira, 15 de maio de 2017


How i wish
To continue loving you
I pick out
from my memory
The best picture of you
That i can:
your sleepy
and wrinkled face.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

 
 
I loved you in the morning, our kisses deep and warm
Your hair upon the pillow like a sleepy golden storm
Yes, many loved before us, I know that we are not new
In city and in forest, they smiled like me and you
But now it's come to distances and both of us must try
Your eyes are soft with sorrow
Hey, that's no way to say goodbye
I'm not looking for another as I wander in my time
Walk me to the corner, our steps will always rhyme
You know my love goes with you as your love stays with me
It's just the way it changes like the shoreline and the sea
But let's not talk of love or chains and things we can't untie
Your eyes are soft with sorrow
Hey, that's no way to say goodbye
I loved you in the morning, our kisses deep and warm
Your hair upon the pillow like a sleepy golden storm
Yes, many loved before us, I know that we are not new
In city and in forest they smiled like me and you
But let's not talk of love or chains and things we can't untie
Your eyes are soft with sorrow
Hey, that's no way to say goodbye

sábado, 4 de fevereiro de 2017


Já teve a palavra a aptidão almejada?
Como comunicar-se entre morais obnubilantes?

Sem a dúvida de si e do argumento,
não há terreno limpo para que a inteligência germine
a compreensão e o entendimento.

Entre tantas certezas e atributos de personalidade com esmero
entronados, reina
                                    [sob o simulacro da tolerância
a mais atroz violência e ignorância.

Já teve a palavra a aptidão almejada?
Como comunicar-se entre morais obnubilantes?

Sem a dúvida de si e do argumento,
não há terreno limpo para que a inteligência germine
a compreensão e o entendimento.

Entre tantas certezas e atributos de personalidades com esmero
entronadas, reina
                                    [sob o simulacro da tolerância
a mais atroz violência e ignorância.

quinta-feira, 23 de junho de 2016


CALÍGULA – Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar como se estivessem nus um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?

CHEREA – Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.

CALÍGULA – Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Por que é que não gostas de mim, Cherea?

CHEREA – Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.

CALÍGULA – Porquê odiares-me?

CHEREA – Nisso, enganas-te, Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar porque sei que não és cobarde.

CALÍGULA – Então, porque me queres matar?

CHEREA – Já te disse: julgo-te prejudicial. Tenho o gosto e a necessidade de segurança. A maioria dos homens são como eu: incapazes de viver num universo onde o pensamento mais estranho pode, num segundo, entrar na realidade, onde, a maioria das vezes, nela consegue entrar, como uma faca num coração. Eu também não, eu também não quero viver num tal universo. Prefiro não perder o pé.

CALÍGULA – A segurança e a lógica não podem andar juntas.

CHEREA – É verdade. A segurança não é lógica, mas é sã.

CALÍGULA – Continua.

CHEREA – Não tenho mais nada a dizer. Não quero entrar na tua lógica. Faço outra ideia dos meus deveres de homem. E sei que a maior parte dos teus súbditos pensam como eu. Tu és inconveniente para todos. És natural que desapareças.

CALÍGULA – Tudo isso é muito claro e muito legítimo. Para a maioria dos homens, é mesmo evidente. Não para ti, é claro. Tu és inteligente, e a inteligência, ou se paga caro, ou se nega. Eu pago. Mas tu, porque não queres negá-la, nem pagá-la?

CHEREA – Porque tenho desejo de viver e de ser feliz. Creio que não se pode ter, indo até o fim do absurdo, nem uma coisa, nem outra. Sou como toda a gente. Para me sentir livre, acontece que às vezes desejo a morte daqueles que amo, e convido mulheres que as leis da família ou da amizade me impediam de convidar. Para ser lógico, teria então de matar ou de possuir. Mas penso que estas ideias vagas não têm importância. Se toda a gente se metesse a realizá-las, não poderíamos viver nem ser felizes. E insisto, é isso o que me importa.

CALÍGULA – É preciso, então, que acredites em alguma ideia superior.

CHEREA – Acredito que há acções belas e outras que o não são.

CALÍGULA – Creio que são todas iguais.

CHEREA – Eu sei, Caius, e é por isso que não te odeio. Mas tu és incómodo, e é preciso que desapareças.

CALÍGULA – Tudo isso é profundamente verdadeiro. Mas porque mo anuncias, arriscando a tua vida?

CHEREA – Porque outros me virão substituir, e porque não gosto de mentir.

CALÍGULA – Cherea!

CHEREA – Diz, Caius.

CALÍGULA – Julgas que dois homens cuja alma e cujo pundonor são iguais possam, ao menos uma vez na sua vida, falar de coração aberto?

CHEREA – Parece-me que foi o que acabamos de fazer.

CALÍGULA – Sim, Cherea. E, no entanto, tu julgavas-me incapaz de o fazer.

CHEREA – Estava enganado, Caius. Reconheço-o e agradeço-te. Agora, espero a tua sentença.



Calígula. Albert Camus. 

sábado, 18 de junho de 2016

Assim que eu me levanto

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Assim que eu me levanto (às quatro e meia, cinco horas), pego minha tigela na mesa da cozinha. Coloquei-a na véspera, para não mexer muito na cozinha, para reduzir o ruído de meus movimentos.

Continuo fazendo assim, dia após dia, menos por hábito do que para recusar a morte de um hábito. Ficar em silêncio não tem mais a menor importância.

Ponho um fundo de café em pó, da marca Z A M A filtro, que compro em grandes vidros de 200 gramas no supermercado FRANPRIX , em frente ao metrô Saint-Paul. Pelo mesmo peso, ele custa quase um terço a menos do que as marcas mais conhecidas, Nescafé, ou Maxwell. O próprio gosto é claramente um terço pior do que o do nescafé mais grosseiro não liofilizado, que já não é lá essas coisas.

Encho minha tigela na torneira de água quente da pia.

Levo lentamente a tigela para a mesa, segurando-a entre minhas mãos que tremem o menos possível, e sento-me na cadeira da cozinha, de costas para a janela, em frente à geladeira e à porta, em frente ao sofá, feio e vazio, que está do outro lado da mesa.

Na superfície do líquido, arquipélagos de pó marrom tornam-se ilhas negras bordadas de uma lama cremosa que se afundam lentamente, horríveis.

Penso : << E junto a paus a flux / o horrendo creme.>>

Não como nada, bebo apenas a grande tigela de água mais ou menos morna e cafeinada. O líquido é um pouco amargo, um pouco caramelizado, pouco apetitoso.

Engulo-o e fico um momento imóvel olhando, no fundo da tigela, a mancha preta de um resto de pó mal dissolvido.


jacques roubaud. algo : preto. poemas.