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Mostrando postagens de Março, 2012

poema 50 ou pequena crônica

São rostos que dizem: não, o tempo não trouxe respostas / Bochechas caídas de cão amestrado / Passos cansinos a caminho de casa / Jaquetas puídas, sapatos desgastados / Homens e mulheres de todos os dias / Quererão coisas / Terão sonhos / E por isso a máquina se movimenta / Atropelando-se a si mesma / Renegando-se algumas vezes, amando-se outras / Ator desavisado que precisaria tornar-se expectador de si mesmo /  Um segundo que fosse / Perceber que, ao sabor do vento, desempenha comedias ou tragédias / Nunca realidades.
Ato 1
Já a caminho do metrô, X nota haver esquecido o bilhete. Amaldiçoa os céus, repete alguns vezes a palavra merda, e como um cão com o rabo entre as pernas, volta para apanhá-lo. Após alguns passos, nota caminhando na direção contrária, na mesma direção que antes ele próprio seguia, um homem extremamente alto e magro, de cabelos longos e barba livre, pele branca e olhos claros. O homem conversava com uma mulher e, devido ao seu tamanho, olhava em direção ao chão. X ouve a palavra “Jamaica” sair de sua boca.
Ato 2
X, depois de haver encontrado seu bilhete, após ter caminhado de volta para o metrô, percorrido todas as estações que levam ao seu destino, seguido até o ponto de ônibus que será a última etapa da volta para casa, está esperando, sentado em uma mureta. Vê caminhando em sua direção um homem extremamente alto e magro, de cabelos longos e barba livre, pele branca e olhos claros. De imediato, lembra-se. O homem se senta ao seu lado. X pensa em coisas como o acaso, a mecânica de…

poema 49

Água contra água É dia de festa no mar: há chuva

Exercício - Construção do espaço pelo cheiro e uma digressão desavisada

Vou para o trabalho de metrô. Mas não necessito fazer nenhuma baldeação. Percorro quatro estações da mesma linha. É a verde. Para os habitantes da minha cidade, essa informação terá alguma relevância. Vila Madalena até Trianon-Masp. Terão uma idéia de onde moro e trabalho. Os outros poderão imaginar a cor que quiserem. Digo cores porque normalmente é o que utilizam para designar as linhas de metrô. Mas podem escolher quaisquer outros substantivos. Animais, por exemplo. Linha papagaio, linha orangotango. Pensar em tudo isso me fez imaginar que talvez fosse divertido utilizar adjetivos: linha apressada, linha desinibida, linha inflexível, linha maquiavélica, linha melancólica. Mas talvez isso não seja uma boa idéia. Pegar a linha melancólica em um dia triste não seria uma boa combinação para uma pessoa mística. Tomaria isso como uma prova irrefutável da ausência de sentido da vida. Haveria suicídios. Reclamariam a parcela de culpa do Estado...
Mas não era sobre isso que eu pretendia escr…