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Mostrando postagens de Outubro, 2013

OITAVA ELEGIA

COM TODOS OS SEUS OLHOS, a criatura vê o Aberto. Nosso olhar, porém, foi revertido e como armadilha se oculta em torno do livre caminho. O que está além, pressentimos apenas na expressão do animal; pois desde a infância desviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos, ah, esse espaço profundo que há na face do animal. Isento de morte. Nós só vemos morte. O animal espontâneo ultrapassou seu fim; diante de si tem apenas Deus e quando se move é para a eternidade, como correm as fontes. Ignoramos o que é contemplar um dia, somente um dia o espaço puro, onde, sem cessar, as flores desabrocham. Sempre o mundo, jamais o em-parte-alguma, sem nada: o puro, o inesperado que se respira, que se sabe infinito, sem a avidez do desejo. Uma criança aí se perde, às vezes, em silêncio, mas é despertada. Ou alguém que morre, nisso se transforma. Pois os que da morte se aproximam não mais a podem ver, fixando o infinito com o grande olhar do animal. Os amantes – não estivesse o outro a ofuscar-lhe a visão – sentem a obsc…

Se o poeta falar num gato

Se o poeta falar num gato, numa flor, num vento que anda por descampados e desvios e nunca chegou à cidade... se falar numa esquina mal e mal iluminada... numa antiga sacada... num jogo de dominó... se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que [morriam de verdade... se falar na mão decepada no meio de uma escada de caracol... Se não falar em nada e disser simplesmente tralalá... Que importa? Todos os poemas são de amor!

Solidão

A solidão é como a chuva que brota do mar para o cair da tarde; da planície distante e remota para o céu, que sempre a adota. E só então recai do céu sobre a cidade.
Ela chove, entre as horas, a seu despeito, quando todos os becos buscam a madrugada e quando os corpos, que não encontraram nada, quedam-se juntos, tristes e frios, e os que se odeiam, rosto contrafeito, têm de dormir no mesmo leito:
aí a solidão flui como os rios...
Rainer Maria Rilke

Campos, Augusto de. Coisas e anjos de Rilke. 2. ed.  - São Paulo : Perspectiva, 2013.