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Mostrando postagens de Maio, 2014

poema 238

Quando o Eu aparece em sombras O peso é maior Quando a voz é verdadeira O curso é de águas tranquilas
Se forte ou fraco Não importa... É preciso encontrar o espelho Onde o reflexo do tigre é a flor
Quando se entende a melodia das coisas Não há tamanhos, não há medidas Tudo se faz eternamente presente Tudo é igual em importância
Quando se entende a melodia das coisas Criar é descrever E os passos dos homens
Divertem pássaros

poema 237

Eu estava pensando sobre o Amor Pra variar Entre goles e passos Eu tentava concluir algo Depois de mais um fracasso Por que eu não quis ver mais a C. Depois da primeira vez? Boa conversa Sem amolações Sem aspirações Mas eu não tinha como controlar meu corpo Que não recebeu o corpo dela cem por cento E eu sabia que não me orgulharia dela cem por cento Nos bancos de metrô, nos bares E não ser cem por cento no Amor É a pior das misérias Já há tantos mais ou menos entulhando a vida
E então me lembrei de J. Eu conseguiria dizer que a amei Sim, Deus sabe como eu conseguiria O que me faz acreditar Pelo menos Que nem tudo está perdido E que os cometas existem Mas eu preciso entender o mecanismo O mecanismo básico Pra que a coisa se repita Porque ela passou... A J. se foi...
Tento lembrar do que ela foi para mim Tudo muito rápido, um dia e meio Pesco detalhes O crânio perfeito A orelha perfeita A compreensão do humor (O senso do humor está quase extinto) Mas não, me perco... Também não é isso A grande confirmação foi a do amálgam…

prosa poética 8

Seu corpo é areia onde me deito. E meu corpo finalmente ganha forma nesse lívido leito. Nesse instante agudo, torno-me alguma coisa sólida. Por alguns momentos, estanco a perda de qualquer coisa vital, que lá fora, dentro das horas, parece jorrar sem cessar. Sou, agora. Refeito na mesma fôrma, menos rarefeito ainda que, embora, seja questão de tempo, pouco tempo, você que logo irá embora.
Voltado para o avesso da terra, respiro na sua pele um ar antigo, o ar quente e pesado das grandes florestas tropicais, carregados de vida e de morte. Úmidas como a sua boca - fina cobertura de gelo pela qual deslizo com zelo - sua boca, secretando convites, surrando mudas certezas epilépticas. No escuro do escuro, no último círculo da noite, suas pernas juntas são como a cauda de uma sereia. Seu ventre aberto, campos onde cresce o centeio, pradarias pedindo galope.  Sua pele, brilho fosco do meu piscar de olhos. Sua respiração... qual melodia o quê - a própria matéria viva, vivamente assustadora.
V…

poema 236

O balançar de uma bela cabeça vazia cheia de sopros e ventos ornada de fios de ouro talhada em formas retas e vestida em pêssego... Vale mais do que a inteligência que bufa! O esplendor físico é INCONTESTÁVEL.
A inteligência... Qualquer um se atreve a profaná-la...

poema 235

Como amar as coisas todas elas sem que entulhem nosso coração como num quarto apertado provocando estragos falta de ar?
Será preciso derrubar as paredes do coração?
Será preciso fazer suas fibras das coisas espalhadas pelo Mundo?
De folhas secas? De baldes vazios? De amores dos outros?
Para amar todas as coisas será preciso refazer o coração
Imagem
Gatilho do pensamento:
“O amor puro é um amor morto se o amor implica uma vida amorosa, a criação de uma certa vida – assim ele não é nessa vida senão uma referência perpétua e é com relação ao resto que será preciso então se entender”.
Cadernos (1937-1939), A DESMEDIDA NA MEDIDA, Albert Camus, Editora Hedra, 2014
Daí, na trama mental, pulsou a música da Legião Urbana, por conta destes belos versos:
Quando você deixou de me amar Aprendi a perdoar E a pedir perdão. (E vinte e nove anjos me saudaram E tive vinte e nove amigos outra vez)
E lembrei do Rilke – sempre ele - quando reflete que, para que o amor aconteça entre duas pessoas, um amor bom, antes temos de estar preparados para o estado de Amor por todas as coisas.


O amor dirigido apenas aos nossos, nossos amigos, os de nosso sangue... Sempre me provocou um certo desconforto, como se existisse um grande buraco na história toda. Penso haver um problema essencial quando amo efusivamente alguém, mas sou incapaz do mínimo afeto por desconhecido…

prosa poética 7

Em uma savana africana, os olhos de um elefante brilham no céu e a lua está por todas as partes. O vento é forte e se faz ouvir. Nas ranhuras das longas peles do enorme animal, pequenas formas de vida se aninham. A noite desce sólida. Nada vence o escuro. Águas paradas consagram a calma - Pequenos insetos realizam milagres sobre sua superfície. A pedra é pura paciência. Indecifrável. A terra em farelos é o Todo espalhado. O leão avança em salto. Que decisão o anima? Nenhuma; pergunta humana. A origem dos movimentos é secreta. Tudo é espanto. Pleno acontecimento. O leão não se indaga, a seiva não se indaga. Os ruídos existem, são quase concretos. O grito dos insetos escondidos se aproxima como se fosse a própria noite. Todas as coisas, independentemente do tamanho, parecem ter a mesma potência. Éa vida aqui e ali. Um estouro seguido de calmaria. O olhar animal não retém o momento. A teia da aranha retém apenas o alimento.
Aqui não se faz farinha do vazio.

CADERNOS DE ALBERT CAMUS

A Editora Hedra publicou três volumes dos Cadernos do Albert Camus. Parabéns.  O Camus é um grande homem e conviver com seu pensamento enriquece. Deve ser difundido. Mas faço uma crítica à Hedra: era mesmo necessária a divisão em três volumes?  Pela quantidade de páginas de cada um, parece-me que não.  Claro que posso estar errado, pois desconheço o mercado de livros, mas fiquei com a impressão de que tal divisão teve a finalidade de aumentar ganhos. Desembolsei quase cem reais.  Restringe-se, com isso, a difusão. E o Camus é um homem que precisa ser lido. 
Alguns trechos: 

“Hoje, me sinto livre em relação ao meu passado e ao que perdi. Só quero esse aperto e esse espaço fechado – esse fervor lúcido e paciente. E como o pão quente que se aperta e que se reduz a quase nada, eu quero apenas ter minha vida nas mãos, como aqueles homens que souberam encerrar suas vidas entre flores e colunas. E ainda essas longas noites de trem nas quais se pode falar consigo mesmo e se preparar para viver, de …

prosa poética 5