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Mostrando postagens de Junho, 2014

Livro das minhas perguntas

O Livro das Perguntas do Neruda é uma daquelas preciosidades... Volta e meia volto a ele e é o mesmo prazer de sempre. Dá uma vontade de escrever seu próprio livro de perguntas. Acho que vou começar:

1. Como se despede a mulher apaixonada?
2. Como o grito protege os próprios ouvidos?
3. Quais pensamentos esconde a cortina de sua franja?
4. É doce a morte do açúcar quando se afoga em café?
5. O que dizem os paralelepípedos com seus gritos de dor?
6. Na ausência de margaridas como jogar Mal-me-quer, bem-me-quer?
7. Qual verbo usar para as nuvens? Voar?
8. De que saco O domingo tira seu silêncio?
9. De quanto passado São feitos os amores novos? 
10. Onde está o verde Do ipê roxo?
11. Em qual bosque espera nossa alegria  Enquanto estamos tristes?
12. Em que parte descansa o vento Nos dias de chumbo?
13. Será mesmo verdade Que minhas noites iluminam o Japão?
14. Como pedir aos pássaros Um pouco de seu amor forte?
15. Quantos pássaros nadam Pelo vale do "v" de ave?

16. Quantos amores A cegueira de meus amores ign…
Me diga: a rosa está nua ou só tem esse vestido?

poema 243

Arde peso de brasa Queima oco de vento Sopra resto de vela
Pesa leve a senzala Dura pouco o intervalo - O amor é só ontem
Foge a noite por onde? Estou por todos os lados Derretido em cacos Não agarro o vento
Decote de vidas Beijos de língua Amores freelance
Arde a língua embebida De sorrisos e mágoas De sonhos e plágios
Me sacode o passado Ando tão esquecido... Já não tenho mais nome
As hipóteses me matam Sou todo ouvidos Mas não me informem de mim
Viro vidro de espelho Ando mudo, calado Passo reto, apertado
Doí olhar para os lados Encarar também dói Levitar tão difícil...
O exemplo das sombras Das luzes, das cores Tudo quieto, sem peso
Poucos minutos Tanto tempo... Uma coisa só

Sob uma estrela pequenina

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade. Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano. Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha. Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória. Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo. Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro. Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa. Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo. Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos. Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã. Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio. Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água. E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola, fitando sem movimento sempre o mesmo ponto, me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado. Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa. Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas. Verdade, não me dê excessiva atenção. Seriedade, me mostre magnanim…
O homem, guiado pelo senso da beleza, transforma o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) num motivo que mais tarde vai se inscrever na partitura de sua vida. Voltará a esse motivo, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o como faz o compositor com o tema de sua sonata. Anna poderia ter posto fim a seus dias de outra maneira. Mas o motivo da estação e da morte, esse motivo inesquecível associado ao nascimento do amor, atraiu-a no momento do desespero por sua beleza sombria. O homem, inconscientemente, compõe sua vida segundo as leis da beleza mesmo nos instantes do mais profundo desespero. Não se pode, portanto, criticar o romance por seu fascínio pelos encontros misteriosos dos acasos (como o encontro de Vronski, Anna, a plataforma e a morte, ou como o encontro de Beethoven, Tomas, Tereza e o copo de conhaque), mas se pode, com razão, criticar o homem por ser cego a esses acasos, privando assim a vida da sua dimensão de beleza. Milan Kundera, A insu…

prosa poética 10

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prosa poética 9

Acordo com infinitos cacos de sonhos misturados. Pela cabeça espalhados. A cada passo dado na confusão do quarto, cambaleante, um novo trecho se define, fixa-se diante de um rastro de luz da consciência recém-desperta. Alguém me trouxe duas camisetas, uma azul, outra preta, que me vestem bem. Você me mandou uma foto sua – é impressionante: sua beleza já se transformou em matéria de meus sonhos. Passei por uma frutaria e as bananas me pareceram caríssimas. Fiz-me diretor de futuras cenas nossas e ainda nada, nada aconteceu. O vento, vejam só, percebam bem, o vento é uma força poderosa, embora invisível, embora informe. Move, constrói, destrói. Portanto, não duvidem: em algum lugar, de alguma matéria que desconhecemos completamente, elabora-se a força que de repente nos invade em silenciosa violência e, percorrendo os ocos de nossos corpos, nos faz mover como marionetes.