Postagens

Mostrando postagens de Junho, 2016
CALÍGULA – Cherea, acreditas que dois homens cuja alma e cuja altivez sejam iguais possam, ao menos uma vez na vida, abrir o coração e falar como se estivessem nus um diante do outro, despojados dos preconceitos, dos interesses particulares e das mentiras em que vivem?
CHEREA – Penso que é possível, Caius. Mas julgo-te incapaz de o fazer.
CALÍGULA – Tens razão. Só queria saber se pensavas como eu. Cubramo-nos então de máscaras. Utilizemos as nossas mentiras. Falemos como quem se bate, sempre em guarda. Por que é que não gostas de mim, Cherea?
CHEREA – Porque em ti não há nada de que se possa gostar. Porque estas coisas não se controlam. E também, porque te compreendo o bastante para não te amar, e porque se não pode gostar, noutrem, daquilo que recalcamos em nós.
CALÍGULA – Porquê odiares-me?
CHEREA – Nisso, enganas-te, Caius. Não te odeio. Apenas te julgo prejudicial e cruel, egoísta e vaidoso. Mas não te posso odiar porque sei que és infeliz. E não te posso desprezar porque sei que não é…

Assim que eu me levanto

-->

Assim que eu me levanto (às quatro e meia, cinco horas), pego minha tigela na mesa da cozinha. Coloquei-a na véspera, para não mexer muito na cozinha, para reduzir o ruído de meus movimentos.
Continuo fazendo assim, dia após dia, menos por hábito do que para recusar a morte de um hábito. Ficar em silêncio não tem mais a menor importância.
Ponho um fundo de café em pó, da marca Z A M A filtro, que compro em grandes vidros de 200 gramas no supermercado FRANPRIX , em frente ao metrô Saint-Paul. Pelo mesmo peso, ele custa quase um terço a menos do que as marcas mais conhecidas, Nescafé, ou Maxwell. O próprio gosto é claramente um terço pior do que o do nescafé mais grosseiro não liofilizado, que já não é lá essas coisas.
Encho minha tigela na torneira de água quente da pia.
Levo lentamente a tigela para a mesa, segurando-a entre minhas mãos que tremem o menos possível, e sento-me na cadeira da cozinha, de costas para a janela, em frente à geladeira e à porta, em frente ao sofá…
O sol se põe sob a porta.
Com toda a evidência algo se acaba mas como saber o quê? se fosse o dia seria simples, mas de uma simplicidade exterior, só implicado gestos : a lâmpada, o fechar das portas, a cama.
Não pode ser isso.
Procuro um índice no sol, na poça de sol posto diante da porta, que já se agita, se retira.
Morrer? não creio. morrer além disso não seria um acabamento. pelo menos para mim.
Algo que está no fim, bem próximo, ao sol posto sob a porta, não conseguiria saber o quê.
Não tentarei sabê-lo. o sol apagado, a noite prevenida de seu fim, eu me levantarei, fecharei as portas, as lâmpadas, a cama.
Houve um tempo em que eu não teria deixado perder-se o sentido de nenhum fim interior. eu teria ficado na noite, nas mãos na noite, as palavras.
Agora, está vindo um fim, renuncio.


jacques roubaud. algo : preto.
Deve-se evitar a tentação de, nos raros momentos de graça e completude interna, considerar isso uma consequência de uma conquista de nossa personalidade sobre o mundo. Tolice e falta de humildade. O mundo não se conquista. Aquela sensação tem mais a ver com compor a paisagem, ou como uma célula que de repente tomasse consciência e observasse o organismo vivo que integra.
Vícios a evitar obstinadamente: grandiloquência e excesso de personalidade.
Horas mortas:
sentenciar o tempo.
Sons distantes agora aqui; murmúrios constantes; a luz.
Vertigem de consciência: estou;
sou.
Estive em outro aqui estive.
Disposição acidental.
O ruído dos homens como silêncio de pedras.
Estar entre homens como estar entre mortos.
Como regressar?